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Um visto para Angola Imprimir E-mail
Fonte: Gonçalo Cadilhe, EXpresso - Editado por AD   
Wednesday, 07 June 2006
ImageESPECIAL AD : 07-06-2006:  Em África o que me preocupa não é o estado das estradas, as condições do hotel, a higiene do alimento, a segurança do país. Se essas coisas me preocupassem, não estava aqui; tinha ficado em casa. O que me preocupa é a obtenção dos vistos. Um processo burocrático caro, complicado e incerto. Mas incontornável: poderia tentar muitas tolices e inconsciências, mas nunca a de me enfiar num país africano sem estar com a minha situação migratória legalizada.

As peripécias burocráticas para conseguir vistos para os dois Congos, o Botswana e Angola terminam por fim, e a viagem pode prosseguir por África acima.
Passaram 15 dias e ainda estou em Windhoek, a capital fria e pouco conhecida da Namíbia. Volto à velha dança dos consulados, salto de uma representação diplomática para outra, ao ritmo dos carimbos no passaporte, tentando estabelecer um itinerário possível pelo continente acima.

Em África, o que me preocupa não é o estado das estradas, as condições do hotel, a higiene do alimento, a segurança do país. Se essas coisas me preocupassem, não estava aqui; tinha ficado em casa. O que me preocupa é a obtenção dos vistos. Um processo burocrático caro, complicado e incerto. Mas incontornável: poderia tentar muitas tolices e inconsciências, mas nunca a de me enfiar num país africano sem estar com a minha situação migratória legalizada.

Um cidadão português necessita de um visto para a maioria dos países que eu pretendo atravessar. Não se percebe bem porquê. Imagino que os vistos sirvam para controlar os fluxos migratórios de nações económicas e socialmente mais atrasadas, para outras mais evoluídas. Compreendo que a Espanha ponha grandes problemas à entrada de mais um marroquino no seu território, ou que o Canadá não queira ver mais portugueses a tentar o salto.
O que não compreendo é as dificuldades que um Gabão ou uma Nigéria conseguem criar a um europeu que só quer atravessar o mais rapidamente estes países, se possível sem percalços de maior. Será burocracia e ineficiência? Será retaliação? Entre outros requisitos, pedem uma declaração da empresa que me emprega, não vá eu com intenções de procurar emprego no Burundi.

Pedem um extracto da conta bancária a provar a minha sólida situação financeira, não vá eu pedir esmola para o Burkina Faso. Querem um bilhete de avião a certificar a minha intenção de deixar o território nacional numa certa data, não vá eu estabelecer-me no Zaire para sempre. Querem também uma carta de uma pessoa ou entidade do país a convidar-me a visitá-la. Este requisito então...

Nos últimos dias refiz o itinerário. A minha ideia inicial era a de seguir pelo lado do Índico. Até à Etiópia não teria problemas de maior, mas no Sudão as coisas complicam-se. O conflito do Darfur tem-se agudizado nas últimas semanas, ameaçando envolver os países limítrofes. A ideia de atravessar do Sudão para o Chade e chegar então ao Níger torna-se cada vez mais improvável. Segundo relatam vários viajantes, é possível passar rapidamente da Etiópia para o Egipto pelo Nordeste do Sudão, em caravanas escoltadas pelo exército. Mas eu não quero seguir para o Cairo, quero seguir para Lisboa.

Tento em Windhoek a outra possibilidade, o lado do Atlântico. Parece levemente menos complicada. A verdade é que nestes dias de espera consegui um visto para o Congo, o que tem como capital Kinshasa; e também um visto para o outro Congo, o que tem como capital Brazzaville. Pelo meio fica Angola. Tento também um visto.

«Para que quer ir a Angola?», pergunta-me a senhora do consulado. «Quero atravessar o país», respondo. «Só é possível entrar em Angola pelo aeroporto de Luanda. Não damos vistos terrestres». Explico que tenho medo de voar. Reconsidera e dá-me um formulário para preencher. «Quando ficará pronto?», pergunto. «Mais ou menos dois meses», responde. Como é possível? «O seu processo segue para a embaixada de Angola em Lisboa e de lá decidirão se lhe concedem o visto».

Desisto. Nem pensar em esperar dois meses, ainda por cima sem sequer ter a certeza de uma resposta afirmativa. Regresso ao hotel. Jackie, a dona australiana do hotel, sorri compreensiva. «Paciência. Nunca nenhum ‘mochileiro’ conseguiu um visto para Angola». Jackie conhece bem a situação, ela própria viajou por toda a África antes de se estabelecer na Namíbia e abrir este estabelecimento destinado a turistas pé-descalço, ‘mochileiros’ espartanos, viajantes de longo curso.

O hotel da Jackie ajuda a passar os dias de espera. Por ali passam os mais estranhos viajantes, contam-se as histórias mais caricatas, fazem-se os mais imprevistos encontros. Numa parede afixam-se mensagens de viajante para viajante. «Três raparigas procuram boleia para visitar as dunas do deserto». «Olá, sou o Philip, tenho um carro e regresso a Joanesburgo domingo. Aceito passageiros que queiram dividir gasolina». «Expedição às cataratas de Vitória pelo Botswana num Land Rover totalmente equipado. Contactar Cedric».

Contacto Cedric. Não estou interessado em participar, mas o resto da mensagem deixa-me curioso. O Cedric dispõe-se a ajustar o itinerário à vontade do cliente. Cliente? «Ando sem muito dinheiro, mas com muito tempo», explica-me. «A minha ideia é recolher passageiros que paguem a viagem. Eu forneço o veículo, a condução, a experiência.» O Cedric vem de Durban. Há três anos perdeu a namorada, trespassou a oficina e pôs-se a viajar. Tem um Land Rover histórico. «É um modelo 107 Series One de 1957 que eu recuperei sozinho», elucida-me, cheio de orgulho.

Homem de sete ofícios, o Cedric facilmente arranja trabalho quando a conta bancária toca o fundo. Esteve seis meses a trabalhar numa reserva de elefantes na Zâmbia, sonha um dia chegar ao Cairo. Por agora contenta-se em levar a Maria da Suécia, e o Luke da Suíça, até às cataratas de Vitória através do Botswana.

Eu também poderei seguir pelo Botswana, Zâmbia e Congo, contornando Angola. Na embaixada do Botswana o funcionário olha a lista das nacionalidades que necessitam vistos, depois olha-me com uma expressão curiosa. «Já não precisa. Os cidadãos da Argélia, do Uzbequistão e de Portugal, agora, também estão isentos». Despeço-me, deixando-o a pensar o que terá um português em comum com um argelino ou um uzbequistanês.

Com eles, nada. Mas com os angolanos, sim. Laços de sangue. Não me conformo com a impossibilidade de viajar por Angola. Regresso à embaixada e peço uma audiência com o cônsul. A funcionária dá-me outro formulário: Motivo da audiência? Prefiro não dizer que sou jornalista, é sempre mais complicado de explicar. Justifico: «Escrita de livro de viagens em África. Importância emocional de incluir Angola. Pedido urgente de visto.» Juntamente com o impresso, coloco uma cópia do meu livro «Planisfério Pessoal». Passados dez minutos tenho a resposta. O vice-cônsul vai receber-me.

Na capa do «Planisfério Pessoal» o vice-cônsul, o Dr. Júlio Guerra, lê: «Finalmente em livro as crónicas publicadas no Expresso». «Então é jornalista do Expresso?». Engulo em seco. «Sabe, há uns anos o seu jornal publicou umas coisas que não foram bem vistas do nosso lado». Engulo outra vez em seco. «Tem a certeza que foi o Expresso?», pergunto. O Dr. Júlio Guerra força a memória: «Não é o Expresso que é do Balsemão?» Engulo uma vez mais em seco e arrisco: «A Sic é que é do Balsemão». O vice-cônsul concorda, um pouco confundido. «Sim, pois, a Sic. Bem, também não interessa», conclui, «tudo isso faz parte do passado, felizmente. Volte dentro de oito dias que tem o visto pronto».

Em África o que me preocupa é a obtenção dos vistos. Mas depois de os ter, preocupa-me então o estado da estrada, a condição do hotel, a higiene dos alimentos, e tudo o resto. Despeço-me da capital fria e pouco conhecida da Namíbia. Agora que tenho os vistos no passaporte, posso finalmente começar a preocupar-me com tudo o resto.


*"Ecos do Kwanza" publicado em Junho de 2006

Última Actualização ( Wednesday, 12 August 2009 )
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