Explorados durante séculos e descritos como os mais pobres dos pobres, num país ainda pobre como Angola, o povo Khoisan está lentamente a retomar a sua vida.
Os Khoisan, também conhecidos por Bosquímanos, são considerados os descendentes dos primeiros habitantes do Sul de África. No entanto, têm uma vida marcada pela fome, discriminação e exploração, sobretudo durante as três décadas de guerra civil em Angola.

O trabalho de campo realizado depois do fim do conflito angolano, em Abril de 2002, possibilitou aos investigadores contactar com o povo Khoisan no país, documentar as suas condições de vida e propor medidas para ajudá-los.
Durante os últimos dois anos, a TROCAIRE, agência católica irlandesa para o desenvolvimento mundial; o WIMSA, Grupo de Trabalho para as Minorias Indígenas do Sul de África e a OCADEC, Organização Cristã de Apoio ao Desenvolvimento Comunitário ajudaram cerca de 3.500 pessoas do povo Khoisan que vivem no sul de Angola.
De acordo com Axel Thoma, coordenador do WIMSA, durante os últimos dez anos e um especialista que trabalhou com os Khoisan no sul de África durante 25 anos, este apoio destinado a ajudar as pessoas a tornarem-se auto-suficientes está a começar a surtir efeito.
Afirmou que os níveis de segurança alimentar dos Khoisan melhoraram significativamente, em parte devido à ajuda que receberam, mas também devido ao empenho deste povo e aos recursos naturais agrícolas. “Em 2004, os Khoisan conseguiram um nível de segurança alimentar de 80 por cento, porque as chuvas foram boas e as pessoas trabalharam muito nos campos, mostrando o quanto tinham gostado desta ajuda,” afirmou Thoma à IRIN.

A falta de chuva na época de 2005/06 originou novamente uma descida entre os 40 e os 50 por cento nos níveis de segurança alimentar, mas Thoma não está preocupado com isso. “Estamos a trabalhar com um grupo de pessoas que conseguiu sobreviver como excluídos durante 27 anos de guerra.”
Thoma elogiou também a política fundiária do Governo angolano, que reconhece que todas as comunidades rurais, incluindo os Khoisan, precisam de ter um terreno e uma casa segura.
“O Governo de Angola está a trabalhar seriamente nos títulos de terra para as comunidades. Uma comunidade tem o direito de gerir a terra para a agricultura, habitação, escolas, recursos naturais, entre outros. Isto ainda não é muito comum no sul de África. No entanto, o Governo angolano está à frente dos seus países vizinhos,” afirmou Thoma.
Ainda muito por fazerThoma acredita que agora o mais importante é alargar os conhecimentos agrícolas dos Khoisan ao gado e às plantações perenes. “Estamos a criar programas para as pessoas terem os seus próprios animais. Assim, têm leite e carne.”
As organizações humanitárias querem que os Khoisan aumentem a produção actual de milho, feijões, melões e abóboras. “A longo prazo vamos ter plantações de mandioca e também de árvores de frutos (manga, papaia, goiaba e abacate). Queremos incentivar os Khoisan a plantar algo duradouro, para que tenham recursos a longo prazo,” declarou.
Thoma gostaria de incentivar este povo a apanhar plantas selvagens, sementes, e raízes do mato para terem alimentos e ingredientes para os medicamentos naturais, mantendo vivos os seus conhecimentos tradicionais.
“A colheita de alimentos parou, porque existe uma pastagem excessiva, mas do ponto de vista do desenvolvimento queremos encorajar as pessoas a utilizarem os alimentos tradicionais e a medicina do mato. São muito bons e muito nutritivos,” afirmou.
“Recolher alimentos é uma actividade comunal realizada pelos jovens, pelas mulheres e pelos mais velhos. É como uma escola para as crianças, que vão descobrir como identificar as plantas e saber se são comestíveis ou venenosas. É importante encorajar as práticas tradicionais e mantê-las, porque não há muito mais para fazer,” observou Thoma.

Com este apoio, Thoma espera que os Khoisan – que têm uma história de discriminação e perseguição por parte de grupos de outras etnias – se tornem auto-suficientes daqui a duas gerações.
“Os Khoisan em Angola são muito mais avançados em comparação com os que vivem nos países vizinhos: têm mais conhecimentos sobre agricultura; são bons a cultivar a terra; aprendem muito rapidamente a cuidar deles próprios e não se tornam dependentes das organizações de desenvolvimento,” realçou.
Thoma estima que 99 por cento dos Khoisan angolanos são analfabetos e, embora os líderes queiram que as crianças frequentem a escola, algumas não têm dinheiro para isso. Muitas das crianças que frequentam a escola desistem por serem maltratadas ou discriminadas, devido à aparência pouco cuidada.
A TROCAIRE, o WIMSA e a OCADEC querem alargar os seus programas para incluir os cerca de 4.000 Khoisan que sobrevivem nas zonas minadas do sudeste de Angola. No entanto, as organizações receiam que esta ajuda possa pôr em risco a sua estratégia de desenvolvimento.
Thoma afirmou que estão “a caminhar numa linha fina” entre o apoio aos Khoisan e a destruição das capacidades naturais e do desembaraço que estes caçadores/recolectores cultivaram ao longo dos séculos.
“O que receio agora é que, havendo cada vez mais pessoas a mostrarem interesse, a estratégia de desenvolvimento seja debilitada pelos intrometidos que pensam que 50 por cento da segurança alimentar não é suficiente,” comentou Thoma, acrescentando que no passado foram criticados por alguns doadores, que os acusaram de terem deixado os Khoisan passar fome.
Argumentou que a sua grande estratégia de desenvolvimento era a correcta para manter as tradições dos Khoisan. “Queremos ajudar um grupo minoritário de pessoas, que continuam vivas nos seus limites culturais.
É um povo que foi escravo durante muito tempo. Queremos ajudá-lo a orgulhar-se da sua existência,” afirmou.
“Os Khoisan são “Adão e Eva”, visto que foram o primeiro povo do sul de África, de acordo com provas de ADN. É um lugar extraordinário e um povo excepcional do qual nos devemos orgulhar. Este povo tem o direito de viver a sua cultura e não ser forçado a modernizar-se num mundo global,” afirmou.
A prova do ADN sugere que os Khoisan vivem na região há 100 mil anos. Estima-se que existem actualmente 100.000 Khoisan no sul de África, dos quais 50.000 vivem no Botswana, 35.000 na Namíbia, 5.000 na África do Sul e os restantes vivem em Angola, Zâmbia e Zimbabué.